140 e mais.

outubro 18, 2009

140 km/h e essa porcaria começa a tremer. Até 120, por aí, tudo bem. Depois, parece que vai sair voando ou se despedaçar. Tento entender porque o painel marca até 200. Um dia, quem sabe, tento chegar lá, se conseguir. A chuva cai fina e as luzes da estrada vão passando. Assim como os carros, que a essa hora são poucos, mas que também vão passando.  Vejo a mureta ao lado da pista, um pouco mais de um metro, estática e passando. Um desejo vem lá do fundo, crescendo. Com o volante tremendo, a 140 por hora, sinto uma vontade incrível de me jogar, deixar o carro ir e bater. Daí, ver o que vai acontecer. A chuva fininha, fininha, a pista molhada e a vontade continua. O que aconteceria? Eu sobreviveria ou não? E que diferença faria? Enfim.

Agora a neblina. Espessa, e o farol cortante vai abrindo caminho, descobrindo palmo por palmo. A noite profundamente escura e a névoa ao redor. Não vejo as árvores, mas sei que estão ali, nas margens a espreitarem. A subida e as curvas sem fim são feitas automaticamente. Já conheço de cor. A neblina é como se fosse uma venda, mas, com o caminho já sabido, não há diferença. Penso só no fim das árvores, sei bem a hora em que elas vão se acabar. Depois, a velha mureta estática e um precipício, centenas e centenas de metros do chão. Penso se seria diferente deixar o carro ir em direção a essa mureta, diferente daquela lá debaixo, porque passei. Será que os 140 por hora, que lá embaixo davam a impressão de que o carro tremendo, se desmanchando, sairia voando, me fariam, aqui, passar pelo precipício e voar? Bater, se desmanchar, voar, numa escuridão sem fim? Mas, até aonde?

É o fim da neblina, também o fim da subida. Voltam as luzes. Altas nos seus postes, passando num ritmo preciso e sem fim. As curvas novamente são retas, algumas tão largas e tão grandes que se estendem por um tempo que parecem horas e mais horas. Por fim chego e automaticamente a luz acende. Não há mais o que pensar, nem tremer, nem desmanchar e nem voar. Não há nada, mais nada, cheguei. Estou bem.


Absurdo

março 25, 2008

 

Era uma lojinha de discos escondida entre um daqueles bares grandes, com mesas e cadeiras do lado de fora, e uma também grande loja de conveniências. Mais para inconveniência era o que eu achava, aqueles dois monstros faziam com que minha loja preferida ficasse escondida. Talvez fosse melhor assim. Sei lá, algo como te-la só pra mim. Ou talvez não.

 

Fui entrando como de costume, mas parece que dessa vez ela não conseguiu se esconder o bastante. Queria o disco novo do Radiohead, sabia que a cópia em vinil encontraria ali. Mas fui andando pelas prateleiras, folheando os discos. Os que já tinha, os que não conhecia e os que sabia que deveria conhecer.

 

Me parei com um vinil de Goo, do Sonic Youth, que, não por acaso, já tinha. Só fui reparar depois na menina do meu lado. Meio baixinha, branquinha, pele branca e seus longos cabelos pretos. Enfim, linda. E segurava o cd de uma dessas bandas novas nas mãos, talvez Arctic Monkeys, quem sabe. Não dei importância ao que ela levava nas mãos.

 

- Sonic Youth?

 

- Sim, sim. Goo, 1990. Conhece não?

 

- Não muito, sempre ouvi falar, mas nunca dei atenção. Vi alguma coisa deles naquele filme Juno.

 

- Ah sim, o da menina grávida. Já vi.

 

- Acha bom?

 

- Juno? Ah sim, achei bem legal…

 

-Não, não. Sonic Youth.

 

- Bom? Bom é esse disco que você tem na mão. Goo é absurdo.

 

- Uhm… Absurdo. Acho que deveria ouvir então.

 

- Acho que deveria levar um para você.

 

(Na verdade queria dizer: “Por que não vamos lá em casa e ouvimos? Tenho um daqueles toca-discos grandes e antigos”.)

 

- Se você está dizendo. Minhas economias estão meio curtas, mas acho que vou levar também.

 

(“Por que não me convida para um café, uma cerveja, sei lá, e depois vamos ouvir o disco em sua casa, já que certamente ele tem um daqueles toca-discos legais, aqueles grandes e antigos”. Ele não falou.)

 

- Pode ficar com esse. Tô olhando só de bobeira, já tenho.

 

(Podíamos ouvir o meu, ou, sei lá, comprar esse e, depois que ouvirmos juntos, dar para ela. Mas não.).

 

- Então tá, me convenceu. Tchau, tchau estranho. Valeu pela dica. Se não gostar, igual à menina do filme, volto aqui pra reclamar com você.

 

- Te garanto que não vai ter que voltar. Tchau, tchau.

 

(Pela primeira vez na vida alguém sensato poderia não gostar de Sonic Youth. Talvez como a menina do filme, falar que é barulhento. Estaria aqui para ouvir.).

 

Ela pagou, saiu pela porta.

 

(Me apaixonei)

 

Paguei, saí pela porta e ele ficou lá, me olhando com o rabo do olho.

 

(Me apaixonei.)


Walls

março 19, 2008

And so it started

One, two, three, four fights

The room getting smaller

The walls embracing us

It gets hard to look at you       

But walls are closing around us

And now, me, you, face to face

 

Want to beat you

To scream at you

To hit you

To turn back on you

And leave

 

But I can’t

There’s no space

The walls reached us

So close that I hear your breath

I can smell your sweat

And it makes me want to hurt you

Even more

 

But I can’t

The more the walls close by

The more I love you.


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