140 km/h e essa porcaria começa a tremer. Até 120, por aí, tudo bem. Depois, parece que vai sair voando ou se despedaçar. Tento entender porque o painel marca até 200. Um dia, quem sabe, tento chegar lá, se conseguir. A chuva cai fina e as luzes da estrada vão passando. Assim como os carros, que a essa hora são poucos, mas que também vão passando. Vejo a mureta ao lado da pista, um pouco mais de um metro, estática e passando. Um desejo vem lá do fundo, crescendo. Com o volante tremendo, a 140 por hora, sinto uma vontade incrível de me jogar, deixar o carro ir e bater. Daí, ver o que vai acontecer. A chuva fininha, fininha, a pista molhada e a vontade continua. O que aconteceria? Eu sobreviveria ou não? E que diferença faria? Enfim.
Agora a neblina. Espessa, e o farol cortante vai abrindo caminho, descobrindo palmo por palmo. A noite profundamente escura e a névoa ao redor. Não vejo as árvores, mas sei que estão ali, nas margens a espreitarem. A subida e as curvas sem fim são feitas automaticamente. Já conheço de cor. A neblina é como se fosse uma venda, mas, com o caminho já sabido, não há diferença. Penso só no fim das árvores, sei bem a hora em que elas vão se acabar. Depois, a velha mureta estática e um precipício, centenas e centenas de metros do chão. Penso se seria diferente deixar o carro ir em direção a essa mureta, diferente daquela lá debaixo, porque passei. Será que os 140 por hora, que lá embaixo davam a impressão de que o carro tremendo, se desmanchando, sairia voando, me fariam, aqui, passar pelo precipício e voar? Bater, se desmanchar, voar, numa escuridão sem fim? Mas, até aonde?
É o fim da neblina, também o fim da subida. Voltam as luzes. Altas nos seus postes, passando num ritmo preciso e sem fim. As curvas novamente são retas, algumas tão largas e tão grandes que se estendem por um tempo que parecem horas e mais horas. Por fim chego e automaticamente a luz acende. Não há mais o que pensar, nem tremer, nem desmanchar e nem voar. Não há nada, mais nada, cheguei. Estou bem.
Escrito por romin